domingo, 11 de novembro de 2012

o Início e o Fim de Madina Mandinga

por antónio costa
Madina Mandinga tanto quanto pudemos saber, através de relatos de várias pessoas e muitas pesquisas, não existia. Aquele local era uma área relativamente plana, coberta de vegetação tipo savana, com algumas árvores e muito capim. Não havia as tabancas e a população mandinga só veio para esse local pouco antes da nossa Companhia ter chegado. Quais as razões que terão estado na origem de ali se erguer um quartel?
Madina do Boé tinha sido abandonado em fins de Fevereiro de 1969. Com a retirada dos nossos militares desse local ficou uma vasta área sem tropas, pelo que se tornava mais fácil a penetração do IN vindo da Guiné-Conacry. Facilmente atravessavam o Rio Corubal e rapidamente se instalariam por ali, na zona de Batanklim, não muito longe de Nova Lamego (Gabú).
Verificada portanto essa situação e também para assegurar o itinerário Nova Lamego-Piche, sabemos por relatos que as nossas colunas eram constantemente atacadas nesse percurso, julgamos que por essas duas razões foi decidido mandar construir um aquartelamento naquela zona, a que deram o nome de "Madina Mandinga".
Assim, em fins de Abril de 1969 a CCaç 2315, pertencente ao BCaç 2835, iniciou e colaborou na desmatação e construção da picada entre o cruzamento da estrada Nova Lamego-Piche e Madina Mandinga.
Em Agosto desse mesmo ano, iniciaram as obras do Aquartelamento de Madina Mandinga e no final de Outubro de 1969, essa companhia de caçadores (2315) assumiu a responsabilidade dessa zona, tendo-se ali instalado em tendas (as obras estavam praticamente a começar). Estes dados foram fornecidos por um militar dessa companhia de nome Manuel José Moreira de Castro.
Passado um mês, e por ter terminado a comissão na Guiné, essa companhia foi substituída, em 29 de Novembro, pela CCaç 2619, pertencente ao BCaç 2893, que ali permaneceu durante quase dois anos, até Agosto de 1971. 
Podemos dizer que foi esta Companhia (2619) que, ao longo dos dois anos, colaborou e construiu todo o aquartelamento. Os pelotões ficaram instalados em grandes tendas de campanha. Terá sido, sem dúvida, um enorme sacrifício para todos os militares desta companhia a viverem naquelas condições muito precárias.
No sub-menú "MULTIMÉDIA" do nosso blog podemos visualizar um conjunto de slides, gentilmente cedidos por Filipe Nogueira ex. Furriel dessa companhia (2619), os quais evidenciam o decorrer das obras, algumas casernas já erguidas, a abertura das trincheiras, a entrada do aquartelamento, o arame farpado, o futuro campo da bola.
A esta companhia de caçadores  os "bico calado" muito se deve as belas instalações e que nós mais tarde fomos usufruir.
Em 13 de Agosto de 1971, os "Bico Calado" regressou ao Continente e foi rendida pela CCav 3406, pertencente ao BCav 3854, que completaram as obras e ocuparam as instalações na sua totalidade.
Sabemos por indicação de Manuel Gonçalves Domingos, militar desta companhia, que estes ainda tiveram de fazer o forno do padeiro.
Publicamos a seguir 3 fotos deste nosso camarada, numa das quais se pode ver os blocos acabados de fazer e que seriam para o forno.


Esta companhia, que nós fomos render e denominada "Cavaleiros de Madina", era comandada pelo Capitão Cadavez. Segundo disse o Manuel Domingos tiveram dois ataques ao aquartelamento mas sem feridos. Registaram uma baixa por doença.  A população, que estavam nas tabancas junto ao aquartelamento, tinha chegado há relativamente pouco tempo.
Em 08 de Setembro de 1973 a nossa 1ª Cart/Bart 6523 mandou embora os "Cavaleiros de Madina"  e ocupamos em plenitude as instalações. Limitamo-nos a fazer uma limpeza geral e os mais corajosos pintaram as instalações onde dormiam. No meu caso tive a pachorra de pintar o quarto, que compartilhava com o meu amigo Soares, incluindo as camas (de cor vermelha). Comprei os panos em Nova Lamego e fiz cobertas para as camas e cortinados para a janela. O tampo da secretária foi forrado a pano.
Também a messe foi pintada e o nosso Zé Gaipo fez uns belíssimos quadros e cortinados. Outros houve que não quiseram saber disso para nada, até com  as botas dormiam, como o caso do Monteiro Manhiça e Cªp.ldª., mas também não estragaram nada.
Como as obras estavam feitas a nossa companhia limitou-se a fazer algumas tabancas para os mandingas, mas julgamos que nunca foram ocupadas.
Em 20 de Agosto de 1974, a nossa companhia os "Leões de Madina" abandonou aquele local, entregando as instalações em boas condições, aos responsáveis do PAIGC pela mão do nosso Comandante de Companhia, o Capitão Milº. José Luís.
Deixamos intactos e com asseio os símbolos deixados pelas respectivas companhias que nos antecederam, tanto na fachada principal da casa do gerador como os que estavam na base do trono da nossa Bandeira, para por lá permanecerem para a posteridade. Contudo, não abandonamos Madina Mandinga sem, com todo o respeito e lealdade arriarmos e transportarmos a nossa Bandeira Portuguesa. 
Sabemos que posteriormente o PAIGC abandonou Madina e toda a população se deslocou para outras tabancas. 
Madina Mandinga voltou assim, passados cinco anos, a ser o que era antes - um local coberto de vegetação rasteira, com algumas árvores e muito capim. Possivelmente no meio desse matagal, as ruínas do nosso aquartelamento.
Desiludam-se alguns aventureiros que possam querer ir visitar Madina Mandinga, provavelmente nem acesso terão para lá chegarem. 
A todos os "LEÕES DE MADINA", a todos os "CAVALEIROS DE MADINA", a todos os "BICO CALADO" e à primeira companhia que apenas lá esteve um mês, um bem-haja e resta-nos a saudade do local para recordar (e que bom é recordar). Um abraço para toda essa valente e corajosa juventude.
Nota: este trabalho de pesquisa poderá ter alguma imprecisão e possivelmente incompleto, pelo que muito agradecemos que outros possam dar mais contributos. Oxalá surjam comentários a este artigo por parte de todos os Madinenses que por lá passaram, para que esta breve história de Madina Mandinga seja eventualmente mais enriquecida.  obrigado

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